SINPRO-PE | SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE PERNAMBUCO

REFLEXÕES SOBRE AS CIDADES: EXCLUSÃO E SEGREGAÇÃO SOCIOEPACIAL

Por : Wallace Melo

O processo de surgimento, desenvolvimento e urbanização das cidades não é algo recente, embora que esse fenômeno tenha sido notado, sobretudo no Renascimento Urbano e Comercial, justamente com a crise do antigo modo de produção feudal e a transição ao Capitalismo. A emergência das cidades, durante o período medieval foram uma das consequências históricas no período de consolidação do sistema capitalista.

Para Leo Huberman, “um dos efeitos mais importantes do aumento no comércio foi o crescimento das cidades” (1986, p.26). E diante desse processo, houve uma grita por uma nova forma de vida, “o povo começou a deixar as suas velhas cidades feudais para iniciar vida nova nessas ativas cidades em progressos” (1986, p.26). Obviamente que o autor faz referências diretas aos centros comerciais que floreciam na França e na Holanda, porém essa concepção é bastante válida para analisarmos o histórico das cidades modernas.

Outro fator deveras relevante nesse processo se estabelece com o ideal de liberdade, fato que inexistia no âmbito das relações feudais. Sobre isso Huberman explica que:

A população das cidades queria liberdade. Queria ir e vir quando lhe aprouvesse. Um velho provérbio alemão, aplicável a toda Europa ocidental, Stadtluft macht frei (o ar da cidade torna um homem livre), prova que obtiveram o que almejavam. Tão real era esse provérbio que muitas constituições de cidades, dos séculos XII e XIII, continham uma cláusula semelhante à que se segue, conferida a cidade de Lorris pelo rei Luís VII, em 1155: “Quem residir um ano e um dia em Lorris, sem que qualquer reclamação tenha sido feita contra ele, e sem que se tenha recusado a nos submeter sua causa, ou ao nosso preboste, pode aí permanecer livremente e sem ser molestado” (1986, p.27).

Diante desse breve histórico, percebemos que a atual morfologia urbana se configura como algo completamente diferente do ideal de liberdade atribuído às cidades na renascença. Os grandes condomínios e edifícios, cercados pelos diversos aparatos de segurança, que se somando à especulação imobiliária, segrega e privatiza cada vez mais às áreas urbanas. As cidades tornam-se exímias reprodutoras das desigualdades sociais e econômicas, que justamente foram criadas pelo próprio sistema capitalista, que a outrora a construiu. É interessante fazer esse exercício de reflexão histórica, uma vez que, a ideia de liberdade criada no final da Idade Média, de fato, não se interligava à finalidade de emancipar as pessoas em uma vida harmoniosa, liberta das amarras da servidão, mas seria apenas um processo para completar o rompimento com as antigas tradições feudais, e posteriormente “aprisionar” a maioria das pessoas à lógica burguesa.

Esse é o nosso atual modelo de cidade, onde o espaço é para poucos, um modelo urbano onde o discurso da violência não é colocado de maneira acidental, mas na lógica em que tudo de fato, pode se tornar uma mercadoria vendável. Onde os contrastes são visíveis, poucos residem em mansões ou em grandes apartamentos, ao passo que muitas outras famílias sequer conseguem adquirir uma moradia e quando conseguem, passam a residir em bairros precários em infra-estrutura.

Eis que surgem os bairros periféricos, que abrigam a classe trabalhadora e que são expostos a uma completa falta de infraestrutura básica. Essas periferias normalmente tem sua origem ligada ao momento de modernização dos centros urbanos que ocorreram em vários países europeus no mesmo século XIX que praticamente “encaxotou” e “jogou” os operários que viviam nesses centros para locais mais distantes. (BARBOSA, 2012).

Surge mais um desafio para a contemporaneidade, enfrentar as contradições que se materializam nos centros urbanos, onde o espaço é cada vez mais privatizado, onde o comércio das ruas vem sendo cada vez mais abandonados e os modais de transportes, por não oferecer a mobilidade, segurança e o serviço de qualidade, dão espaços para a utilização de automóveis, fazendo do transito, uma outra conseqüência da lógica capitalista, ou seja, um espaço individualista, desigual e competitivo.

Por outro lado, as alternativas estão postas para revertermos essa lógica urbana, contudo, é preciso acumular cada vez mais forças para construirmos de fato um autêntico direito à cidade, ou melhor, uma efetiva liberdade à cidade, que nas palavras de David Harvey seria, “muito mais que o direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo dos nossos corações” (2009, p.28).

De acordo com Friedrich Engels, o crescimento das cidades está entrelaçado ao desenvolvimento das forças produtivas do modo de produção capitalista, ou seja,

o entendimento desse problema passava diretamente pela leitura econômica e política, já que a raiz de toda essa realidade aconteceu em virtude do processo de industrialização em vigor que trouxe um remodelamento da paisagem geográfica, causando assim, um notório inchaço dos grandes centros urbanos, o êxodo rural, aumento do número de cortiços, além da consequente especulação imobiliária. E todos esses fatores são componentes de um sistema econômico que tem como alicerce a exploração de uma classe sobre outra, tendo em vista a busca constante pela valorização do capital e pelo lucro. Dessa forma, não há como superar essas problemáticas sem colocar em destaque a supressão do capitalismo como todo (BARBOSA, 2012).

Assim, entender a cidade é entender de certa maneira o percurso de nossa história, da formação do nosso modelo civilizacional, pois como dizia o geógrafo Josué de Castro, “nenhum traço, nenhum elemento da paisagem reflete com mais eloqüência a nitidez a ação do homem como fator geográfico do que o organismo urbano” (2013, p.21). Assim, a cidade se transforma à medida que a humanidade caminha seus percursos históricos, mas ao mesmo tempo reflete muito bem os nossos princípios e valores de sociedade.

Partindo desse debate e trazendo para o contexto da região metropolitana do Recife, podemos assinalar um autêntico exemplo de segregação socioespacial, quando analisamos as residências localizadas no tradicional bairro de Apipucos, situado na Zona Norte da cidade. São casas localizadas próximas ao açude de Apipucos, em ruas que são praticamente privatizadas, com guarita e vigilência 24 horas. Um grande contraste com os bairros e morros mais próximos, onde a população é mais humilde e ainda convivem diariamente com a falta de segurança e déficit de infra-estrutura urbana, como por exemplo, o Morro da Conceição, Alto José do Pinho etc.

Dando continuidade à discussão, e dentro da finalidade de ilustrar mais sobre a questão levantada, seria interessante avaliarmos a seguinte matéria, publicada pelo site G1, que trata acerca do aumento das vendas de câmeras de segurança no Recife. Vejamos:

CAMERAS

FONTE: Disponível em: http://g1.globo.com/pernambuco/noticia/2013/11/mercado-de-cameras-de-seguranca-cresce-no-recife.html Acesso em: 18 set. 2016.

Perceba que a violência urbana tornou-se um fator que direta e indiretamente aquece o mercado. A lógica comercial não só atinge as lojas e empresas, mas também os condomínios residenciais, que se tornam refúgios constantemente vigiados por câmeras, protegidos por alarmes, detectores de metais e guaritas de segurança. Cria-se assim uma nova mercadoria posta à venda. E isso nos faz pensar até quando o aumento dos crimes também não são fatores relevantes à lógica de mercado que gerencia os grandes centros urbanos.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Wallace Melo. Friedrich Engels e o problema da habitação. Elogiando as utopias & cortejando o absurdo, Recife, 15 dez. 2012. Disponível em: < http://wallacemelobarbosa.blogspot.com.br/2012/12/engels-e-o-problema-da-habitacao.html>. Acesso em: 18 set. 2016.

CASTRO, Josué de. Um ensaio de geografia urbana: A cidade do Recife. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2013.

HARVEY, David. A Liberdade da cidade. In: TOFFANI, Alícia, et al. Cidades rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013.

HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 21 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1986.

Comentários

comments