SINPRO-PE | SINDICATO DOS PROFESSORES DO ESTADO DE PERNAMBUCO

10 DE NOVEMBRO: O PRIMEIRO GRITO DE REPÚBLICA NO BRASIL

Por : Wallace Melo

A data de hoje representa um importante fato histórico para a cidade de Olinda, uma vez que, a mais de 300 anos atrás, em 1710, o Sargento-Mor Bernardo Vieira de Melo foi responsável pelo primeiro “Grito de República do Brasil e das Américas” (Antes mesmo da própria Revolução Americana e da Inconfidência Mineira). O cenário que abrigou esse fato histórico foi o Senado da Câmara da vila de Olinda. Tornando-se um fato muito relevante para as históricas memórias da antiga Vila das Sete Colinas (Um dos primeiros nomes atribuídos a atual cidade de Olinda).

Podemos assim afirmar que essa data representa um importante marco para a “Terra dos Altos Coqueiros”, e que atualmente acumula importantes títulos de Cidade Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela UNESCO, além de ser a Primeira Capital Brasileira da Cultura.

Diante disso, é válido refletir sobre algumas questões que se inserem no contexto dessa primeira proposta de independência pernambucana, por meio do brado republicano dado pelo Bernardo Vieira de Melo em terras olindenses.

É válido ressaltar que a ideia republicana, nesse momento, tem o seu significado, bastante limitado, tendo em vista, os atuais conceitos atribuídos a tal forma de organização política e social. Entretanto, podemos assim concordar que o discurso republicano elaborado em pleno século XVIII pelo Vieira de Melo, pode ser interpretado como um ataque a realidade absolutista e mercantilista que caracterizava respectivamente a política e a economia do Velho Mundo. E justamente por isso, que podemos assim afirmar “A República é Filha de Olinda” como é retratado de forma muito sábia no Hino de Pernambuco.

Como é sabido, durante os três séculos em que o Brasil, servia como uma importante engrenagem para os interesses mercantilistas de Portugal, fora cristalizada em nossas terras, um modelo de sociedade marcado por um amálgama cultural bastante acentudado para o projeto colonizador idealizado pela coroa portuguesa, pautado em valores etnocêntricos, patriarcais e cristãos. E devido a esse grande sincretismo cultural existente na formação da sociedade brasileira, podemos assim refletir sobre uma outra interpretação sobre aquele que é tido como o nosso primeiro herói republicano brasileiro.

Atualmente, encontramos na rua Bernardo Vieira de Melo, as ruínas do antigo Senado da Câmara de Olinda, que era composto por importantes Senhores de Engenhos, que em meio aos contextos sociais ocorridos na colônia, defendiam os seus interesses econômicos e políticos, frente as imposições metropolitanas.

Um desses interesses, como muitos sabem, estariam relacionado a utilização da mão-de-obra escrava, nas grandes lavouras agrícolas do Brasil, fomentando assim um lucrativo comércio de escravos africanos na colônia, utilizando as rotas comerciais do Oceano Atlântico. E a medida que milhões de escravos chegavam as nossas terras, indiretamente penetrava no Brasil, um pedaço do continente africano.

E assim, aquela sociedade colonial brasileira construída por meio dos valores eurocêntricos e principalmente cristãos, também era o cenário de uma história de sofrimentos, etnocentrismo, exclusão, marginalização, que na grande maioria dos casos, eram aspectos corroborados pelos interesses dessa elite latifundiária brasileira que se fazia presente nas câmaras municipais. É nesse momento que a presença do herói republicano, cruza com a história do povo negro brasileiro.

A intenção de querer um Brasil livre do domínio português, representava claramente os interesses da classe dominante brasileira, que almejavam a República, mas defendiam a grande propriedade fundiária, a escravidão e a exclusão política de grande parcela da população. Como o Bernardo Vieira de Melo já era uma figura conhecida no contexto político da época, por ter sido ele, o grande responsável pelo fim do famoso Quilombo dos Palmares, também coube a ele, a responsabilidade de problematizar a dominação colonial por meio Primeiro Grito de República das Américas, em 10 de novembro de 1710.

endo em vista o raciocínio anterior, podemos assim concluir que, o conceito republicano defendido no Senado da Câmara tem sua interpretação bastante limitada e o nosso líder republicano, de fato não tem razoes para ser reconhecido pela população negra do Brasil, haja vista, os seus posicionamentos em favor da escravidão e a sua atuação contra as manifestações de resistência negra a opressão colonial brasileira, na guerra contra o famoso Quilombo dos Palmares, liderado pelo famoso Zumbi.

Enfim, não é minha intenção reduzir essa data para a história do estado de Pernambuco e para a cidade de Olinda, mas é muito importante problematizarmos as diversas interpretações que existem sobre determinados contextos históricos, reforçando assim, a necessidade de construirmos uma história de fato, reflexiva e de consciência crítica. Pois é somente dessa forma, que vamos poder entender o que realmente acontece na verdadeira sociedade brasileira.

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